Governo parece ter optado por uma nova prioridade

Levando em conta as múltiplas declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a política econômica do governo sofrerá neste ano uma profunda modificação: o consumo doméstico como base do crescimento econômico dará lugar aos investimentos, que deveriam ser a fonte principal desse crescimento.

Parece evidente que um aumento do consumo – que depende de elevação dos salários, expansão do crédito, redução da taxa de juros e dos gastos do governo com custeio – abre caminho para mais inflação e para o desequilíbrio nas contas externas.

O fato é que o governo, ao apoiar o crescimento econômico no aumento do consumo doméstico, parece ter esquecido de estimular a produção da indústria nacional, exceto, justamente, a dos bens cuja produção depende de componentes importados, como automóveis, aparelhos eletrodomésticos ou informáticos, por meio da redução do IPI, o que gerou grande aumento de gastos com compras no exterior, que foram ainda mais estimuladas por uma taxa de câmbio bastante valorizada durante um tempo.

Criou-se um clima de favorecimento à ascensão das classes menos favorecidas a esses bens, mas a um custo cada vez mais elevado. Se for dada prioridade aos investimentos, desde que acompanhada de uma redução das despesas de custeio do governo e de firme determinação para que esses investimentos sejam bem planejados, evitando acumular obras realizadas pela metade, isso será certamente muito mais eficiente no atual contexto econômico.

É fato comprovado que qualquer investimento na infraestrutura do País eleva a produtividade da indústria nacional, que assim pode reduzir seus custos de produção e aumentar sua capacidade de exportação.

Sem dúvida, cumpre tomar consciência da natureza dos investimentos, pois eles trazem distribuição de renda antes de ser obtida melhoria das condições do setor produtivo. Desse modo, os investimentos contribuem para o aumento da demanda doméstica, mas, com certeza, mais adiante contribuirão para reduzir os custos de produção e elevar as receitas externas.

É mais fácil financiar investimentos do que despesas de consumo, que implicam um risco muito maior de inadimplência. Todavia, é preciso também tomar medidas para estimular a modernização da indústria nacional, para que ela se prepare para utilizar melhor os recursos postos à sua disposição e reduzir as importações. Mas a tarefa mais importante cabe ao governo, que teria de reduzir seus gastos de custeio.

Fonte: (Editorial Econômico – O Estado de São Paulo)